terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dom Casmurro

Dom vem de sua nobreza,
Casmurro vem por sua amargura.
Quando criança era Bentinho,
Desde sempre “valentinho.”

Nos olhos dela, ele se viu,
Primeiro amor é eterno.
Inocência de criança.
Muita esperança.

Os sonhos se entrelaçam,
Aventuras e encantos,
De um beijo nasce uma rosa,
Promessas feitas

Amizade perigosa.
Primeiras descobertas.
Alianças trocadas,
Palavras guardadas.

E na voz de uma fada,
A profecia da felicidade eterna.
E sobre  finas rendas casada,
E o tempo  lento se envereda.

Manhãs agradáveis marcadas,
Olhares estranhos os assediavam.
E na incerta valsa da vida,
A insegurança nos olhos dele os aguarda.

E nos jantares de dúbios amigos,
A língua se enrolava.
Os sons já não eram mais ouvidos,
Somente sentidos.

E o sangue do quase filho, escorria...
Olhares maliciosos e inquietos.
Chora menina, chora!
E  os maquiavélicos a proferiam, adúltera.

E no camarote Bentinho assistia,
E sem conhecer a real trama, 
Permitiu  que o ciúme o consumisse,
E a desconfiança o corroesse.

E com a verdade amputada,
A inveja não enxergava,
Permitiu que  fluido particular,
Fizesse a mulher de outro cobiçar

O tempo da razão acabara.
Amigo e amiga desleais,
Indivíduo morre afogado,
Se afundando, no orgulho, foi enrolado...

Homem quieto e introvertido,
No enterro de quem já se foi,
Desdenhou sobre a desolação de Capitu,  
E não percebeu  que o defunto foste tu.

Em suas assombrosas cismas,
Sob o próprio reflexo,
A imagem de  outro encontrava,
E no vazio mergulhava.

O monstro saiu das cinzas de Bentinho.
Que desonra o fruto do seu amor,
E o peculiar veneno, que ingeria,
Levando-o a cega e  suprema fúria.

Na loucura entre o real e a fantasia,
Através das meias palavras ditas,
Sem defesa, Capitu se submetia, 
A descrença de Bentinho doentia.

Após longa oração,
A separação Capitu concedia.
E nos fragmentos não contaminados,
O descuido de Bento o torna amargurado.

No abismo criado entre eles,
O vestígio da memória se transforma,
Em alucinação que bate a porta,
Que nem doido suporta. 

Entre as coxas das vis cortesãs,
O agora Casmurro, deleitava,
E a solidão encobria,  
O que o silêncio da noite feria.
  
No fundo de sua alma não podia compreender,
O motivo pelo qual,  nenhuma dessas caprichosas,
O fez esquecer a amada do coração.
Responda essa, valentão!

Deve ser porque nenhuma tinha olhos de ressaca,
Nem de cigana obliqua e dissimulada, 

Somente o primeiro amor para responder,
O que o coração quer esconder.

Cristina P.


 Lucas Werneck