quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Mulher, meu amor...

Jovem, bonita, vibrante, alegre e livre.
Quando o conheci estava ali, crescendo e aparecendo.
Me dizia que eu era tudo o que ele admirava.
Mulher sim senhor, guerreira forte, filha de Maria Bonita.
Mulher do cangaço, da lavoura, com seu facão na mão como arma.
E sem perceber, me deixei levar naquelas palavras motivadoras.
Eu, alguém especial para outro alguém.
Me motivou, fiquei mais forte, destemida, altruísta.
Com ele passei a pelejar melhor e em seus braços descobri o prazer.
Me sentia Anita com seu Garibaldi.
E em cada luta que ganhava, mais o amor ia crescendo.
Ele me queria muito, passou a me aconselhar como ser melhor, mais forte e valente.
Com ele, pude aprender muito, o que o sertão não me ensinou.
Éramos criativos e inovadores, tínhamos um amor único, que ninguém jamais viveria.
Éramos sinceros, não havia mentiras entre nós.
Éramos o par perfeito, Bonnie & Clyde em uma grande aventura.
Totalmente apaixonada, jurei o tão sonhado amor eterno.
Que lindo!
Coração preenchido de amor, desejo e felicidade.
Enlaçamos nossas vidas para o então sonhado final feliz.
Em quatro paredes, montamos um castelo.
Eu princesa e ele o meu príncipe encantado.
Ele todos os dia me aconselhava a melhorar, segundo o seu olhar.
Passou a me preservar, para que eu não me expor demais.
Ficava na minha frente para me defender dos perigos.
E sem perceber, deixei ele tomar a frente da minha vida.
Já não vivia sem os seus conselhos, já não falava ou aparecia, para não me expor.
Aos poucos o tom de voz dele foi mudando, claro  que ele sabia melhor  sobre a vida do que eu.
Muitas vezes falava alto e ríspido para eu poder entender.
Como me amava muito, ele cuidava de mim em tudo, só por proteção.
Eu era sua Helena de Tróia e ele meu salvador, o guerreiro Páris.
Não tinha como ser melhor… alguém que só pensa no meu bem.
Passou a sair e trabalhar sem mim, o que seria de um castelo sem sua rainha?
Ele como bom guardião, trazia tudo o que eu precisava, não me faltava nada.
E só para me educar a ser melhor, passou a mentir.
Dormia com qualquer uma para aprender mais e me ensinar.
Gritava comigo e reclamava de tudo, só para eu me melhorar.
Me fazia chorar diariamente para eu poder  amadurecer.
Me humilhava perante os amigos, colegas de trabalho, vizinhos, para me ajudar a lidar com as dificuldades.
Esfregava na minha cara suas amantes, para que eu pudesse ter inspirações.
Até o momento que me bateu.
E disse que era porque me amava.
Foi então que percebi quem eu me tornara, somente Amélia.
"Santa na frente da sociedade e uma puta na cama", será?
Passou a me deixar cada vez mais sozinha, para eu poder lidar com a solidão.
Me deixou abortar sozinha para eu poder lidar com o vazio no peito e no ventre.
Me xingava, para eu poder evoluir como pessoa.
Dizia que eu não era e nem seria nada sem ele, para me ensinar o quanto ele era importante na minha vida.
Mostrava que era o detentor do capital da família, para me ensinar a economizar.  
Foi então que depois de uma briga por conta das suas amantes, e mais uma humilhação, pude ver o que o doce sertão não me ensinou, ser seca.
Decidi deixar de ser rainha para ser Maria da Penha.
E andei até onde o amor distorcido dele não pudesse chegar.
Foi então que ele me ensinou a melhor lição...
Simone de Beauvoir, independente, altruísta, livre e feliz sem depender de mais ninguém.

E graças a ele, aprendi a ser mulher!

Cristina P.



Lukas Werneck

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Ainda sensível

Leoa, brava feito o cão
De dia é líder, com muitos aos seus pés
A noite amante fatal
Linda como o mar
A verdadeira mulher fatal
Alguém segura ela!
Sorriso encantador
Olhar de bruxa, sedutor
Morde e assopra o tempo todo
E no fundo tenta esconder um segredo
Que ali naquele coração arisco
Em uma gaveta bem guardado
No fundinho, dentro de uma caixinha
Existe ainda a sensibilidade de uma moça inocente
Algo que o mundo cão não destruiu.
E no acalentar da noite com o rosto já limpo
A face da menina ressurge
Ela é doce e encantadora
Antes de dormir cochicha  após um suspiro
Ainda bem que ainda estou aqui
E nem tudo secou... 



Lucas Werneck 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Por que mulheres?

Por que muitas de nós ainda se atropela ou se permite ser atropelada?
Por que ainda temos salários menores que os nossos companheiros no mesmo cargo?
Por que ainda nos degladiamos por outro que não nos dá valor?
Por que ainda nos obrigamos a constituir uma família desigual?
Por que a nossa sexualidade é ofensiva e uma vergonha para sociedade?  
Por que temos que nos encaixar em um estereótipo de beleza ao ponto de nos mutilar?
Por que muitas de nossas irmãs sofrem diariamente com agressões físicas, morais e psicológicas?
Por que muitas de nós não tem a opção de fazer o que quer com o seu próprio corpo?
Por que temos que gostar de brincadeiras diariamente que nos diminua ou nos coloque no papel de objetos, ou pior, um pedaço de carne ambulante sem valor?  
Por que o aborto é só feminino, sendo que o fruto pertence a dois?
Por que muitas de nós não podem ter o poder da fala?
Por que?
Por que a minha criação tem que ser diferente da dele se somos iguais?
Por que a história da minha tataravó, bisavó, avó, tias, primas, da minha própria são tão parecidas?
Por que o meu sexo é o que dita quais são os meu direitos e deveres?
Por que o meu género importa tanto ao outro?   
Por que tenho que vestir a roupa que você quer?
Por que o que faço na minha intimidade te ofende e agride?
Por que a minha fé é da sua conta?
Por que a minha independência machuca tanto a sua leitura sobre DEUS?
Por que?
Por que?
Essas são somente algumas das perguntas que eu mulher gostaria de ter como resposta.
A única certeza que tenho é que eu nem por um minuto, nem um segundo, gostaria de ter nascido em outro corpo, mesmo você não gostando disso.
Sou mulher, com orgulho!!!

Cristina P



Lucas Werneck

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Dom Casmurro

Dom vem de sua nobreza,
Casmurro vem por sua amargura.
Quando criança era Bentinho,
Desde sempre “valentinho.”

Nos olhos dela, ele se viu,
Primeiro amor é eterno.
Inocência de criança.
Muita esperança.

Os sonhos se entrelaçam,
Aventuras e encantos,
De um beijo nasce uma rosa,
Promessas feitas

Amizade perigosa.
Primeiras descobertas.
Alianças trocadas,
Palavras guardadas.

E na voz de uma fada,
A profecia da felicidade eterna.
E sobre  finas rendas casada,
E o tempo  lento se envereda.

Manhãs agradáveis marcadas,
Olhares estranhos os assediavam.
E na incerta valsa da vida,
A insegurança nos olhos dele os aguarda.

E nos jantares de dúbios amigos,
A língua se enrolava.
Os sons já não eram mais ouvidos,
Somente sentidos.

E o sangue do quase filho, escorria...
Olhares maliciosos e inquietos.
Chora menina, chora!
E  os maquiavélicos a proferiam, adúltera.

E no camarote Bentinho assistia,
E sem conhecer a real trama, 
Permitiu  que o ciúme o consumisse,
E a desconfiança o corroesse.

E com a verdade amputada,
A inveja não enxergava,
Permitiu que  fluido particular,
Fizesse a mulher de outro cobiçar

O tempo da razão acabara.
Amigo e amiga desleais,
Indivíduo morre afogado,
Se afundando, no orgulho, foi enrolado...

Homem quieto e introvertido,
No enterro de quem já se foi,
Desdenhou sobre a desolação de Capitu,  
E não percebeu  que o defunto foste tu.

Em suas assombrosas cismas,
Sob o próprio reflexo,
A imagem de  outro encontrava,
E no vazio mergulhava.

O monstro saiu das cinzas de Bentinho.
Que desonra o fruto do seu amor,
E o peculiar veneno, que ingeria,
Levando-o a cega e  suprema fúria.

Na loucura entre o real e a fantasia,
Através das meias palavras ditas,
Sem defesa, Capitu se submetia, 
A descrença de Bentinho doentia.

Após longa oração,
A separação Capitu concedia.
E nos fragmentos não contaminados,
O descuido de Bento o torna amargurado.

No abismo criado entre eles,
O vestígio da memória se transforma,
Em alucinação que bate a porta,
Que nem doido suporta. 

Entre as coxas das vis cortesãs,
O agora Casmurro, deleitava,
E a solidão encobria,  
O que o silêncio da noite feria.
  
No fundo de sua alma não podia compreender,
O motivo pelo qual,  nenhuma dessas caprichosas,
O fez esquecer a amada do coração.
Responda essa, valentão!

Deve ser porque nenhuma tinha olhos de ressaca,
Nem de cigana obliqua e dissimulada, 

Somente o primeiro amor para responder,
O que o coração quer esconder.

Cristina P.


 Lucas Werneck